A “treta” entre Emicida, Fioti, Dona Jacira e as barreiras estruturais da economia étnica para os pretos

O que vou discutir aqui não tem (quase) nada a ver com a fofoca mais quente de Wakanda do momento. Para quem ainda tá no mundo da lua, no último dia 28 de março (sexta-feira), Emicida anuncia pelo instagram, em uma postagem bem objetiva que o seu irmão não representa mais a sua carreira. A partir desse momento, a troca de directs ferveu entre a galera preta e os perfis especializados em fofoca étnica (risos) começaram a discutir todas possibilidades do que poderia ou não ter acontecido, e logo evidenciaram que a Dona Jacira não seguia mais seu filho Leandro nas redes sociais. Tal ação é considerada a maior quebra de confiança do mundo cibernético – que particularmente acho uma bobagem danada colocar tanto peso nisso. Essa situação toda, na minha perspectiva, fundamentada por Almeida (2019), é só um reforço de como a estrutura do racismo contribui para manutenção do capitalismo em seu modus operandi.

Tirando a pessoalidade da situação, vamos analisar o caso pela ótica de negócios familiares dentro da economia étnica e o impacto em que esse imbróglio da Laboratório Fantasma causa nas próximas gerações, tanto da família Roque de Oliveira, quanto na estrutura da cadeia produtiva em que uma empresa que se inicia a partir do movimento Hip Hop está inserida. Fundada em 2009, a Lab Fantasma foi criada para gerenciar a carreira musical do Emicida e com o passar do tempo se transformou em um hub de entretenimento, abrangendo gravadora, editora, produtora de eventos, marca de roupa, canal de streaming e criadora de conteúdos. Ao exemplo da parceria com a Netflix no documentário “Amarelo – É Tudo pra Ontem” que rendeu uma indicação ao Emmy Internacional em 2021. Documentário baseado na construção lírica e da trajetória do álbum AmarElo, que ganhou o Grammy Latino no ano anterior. Além do campo da arte, a empresa se destacou também na moda, participando de três desfiles consecutivos do São Paulo Fashion Week, com as coleções Yasuke, Herança e Avuá, entre 2016 e 2017. Teve também uma coleção em colaboração com a C&A em 2018, grande varejista do segmento que deu mais capilaridade aos produtos da empresa familiar. Existe ainda o campo da literatura, onde em parceria com a editora LiteraRUA, Dona Jacira lançou o livro Café também pela empresa. Para encerrar o resumo, a Lab Fantasma, gerenciou a carreira não só de Emicida, mas também de Fioti, Rael, Drik Barbosa, além de projetos pontuais com Coruja BC1, Kamau e Juçara Marçal. 

Se pararmos para analisar do ponto de vista sociológico, só no parágrafo acima, são incontáveis as barreiras que os idealizadores conseguiram romper com o seu empreendimento. O que agora combina o sentimento de admiração pela história e lástima pela profunda crise em que a empresa se encontra nos últimos meses e o que ainda está por vir. Em todos os ramos que o negócio abrange, são diversos os postos de trabalhos gerados em atividades históricamente oportunizadas somente para profissionais não negros. Profissionais negros que tiveram acesso a trabalhos de grande impacto, desde técnicos de som, à modelos plus size. O conceito de economia étnica, no qual venho me especializando nos últimos anos, segundo Ivan Light (2007) é a capacidade que um grupo de uma etnia específica tem de conseguir gerar renda, subsistência e emancipação à partir da sua própria identidade cultural. Para dar um exemplo mais prático, diversos países contam com bairros de cultura asiática popularmente chamados de Chinatown, aqui em São Paulo temos o bairro da Liberdade (não vamos entrar nos detalhes eugenistas). Nesses lugares se vende de tudo relacionado a gastronomia, moda, mobílias, lembranças, entre outros que têm a estética asiática. Surpreendentemente descobri que até na região do Caribe existe um desses bairros.

Neste caso, o negócio da Laboratório Fantasma gira em torno da cultura do movimento Hip Hop. E pelo fato da trajetória dessa família ser a exceção da exceção do que ocorre com as famílias negras brasileiras na história do Brasil, é que uma briga societária e possível dissolução da sociedade pode ser uma perda irreparável para esse movimento de resistência dos pretos no nosso território. Para quem está de fora, é como se estivéssemos vendo ruir um importante quilombo da nossa contemporaneidade. Não vou entrar no mérito das causas, mas até o que se sabe agora pode ser por questões monetárias.

Independente da quantia que está sendo disputada judicialmente, o valor em reais, ou dólares, se preferir, que a marca ‘LAB Fantasma’ tem no cenário da cultura brasileira é muito superior ao que ocorre no processo (não tenho essa informação, mas aqui não interessa muito). Nos insights da Kantar BrandZ 2024 onde expõem ‘os três ingredientes de marcas fortes e valiosas’ que são: significância (grau de conexão emocional); diferenciação (o quanto se destaca pelas particularidades); e saliência (disponibilidade mental, ou top of mind); e a sua metodologia de avaliação de valor das marcas em: valor financeiro X contribuição da marca. Portanto a minha visão está baseada também em uma autoridade mundial no quesito de avaliação de construção de marca. Tanto da parte socioeconômica, quanto de branding a Laboratório Fantasma é uma raridade no mundo inteiro. Será que é possível existir uma história e um empreendimento desta magnitude nas próximas décadas?

O empreendimento que parecia penetrar e romper todas as barreiras do racismo e da superestrutura capitalista finalmente encontrou um algoz à altura. E é neste ponto em que a história dos três se assemelha à de tantas famílias negras na história da diáspora e da terra mãe: a sucessão familiar. Por que é tão difícil, para não dizer impossível, que um negócio de uma família negra se mantenha ativo, próspero e progredindo por gerações?

O que os netos e sobrinhos de Dona Jacira poderiam fazer com a Laboratório Fantasma depois de acessarem as melhores universidades do mundo e trazer cada vez mais complexidade para o negócio?

Agora imagine quantos salões de beleza, barbearias, estúdios de maquiagem, centros de estética, restaurantes, ateliês, grupos de samba, hip hop, jazz, funk, fazendas, indústrias entre outros inúmeros negócios, que também viveram e ainda vão viver o mesmo dilema?

O que sobrou dos negócios do honorável Marcus Garvey?

Precisamos nos aquilombar e resistir assim como a Irmandade Nossa Senhora da Boa Morte que atua no Brasil desde 1820 (Castro, 2005). Espero de coração que a Laboratório Fantasma supere essa tempestade e possa continuar firme por séculos contribuindo com a emancipação das mentes e dos corpos negros na diáspora.

Escrito por: Wellington – Mestre em Gestão e Desenvolvimento Econômico Regional

@msc.wellington

Referências acadêmicas

ALMEIDA, S. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019. 264 p. ISBN 978-85-98349-75-6.

CASTRO, A. C. A Irmandade da Boa Morte: Memória, intervenção e turistização da festa em Cachoeira (BA). In: ENCONTRO DE ESTUDOS MULTIDISCIPLINARES EM CULTURA, 1., 2005, Salvador. Anais […]. Salvador: Edufba, 2005b.

LIGHT, I.. Global entrepreneurship and transnationalism. in Dana Leo-Paul (org.): The Handbook of Research on Ethnic Minority Entrepreneurship: a co-evolutionary view on resource. Cheltenham: Edward Elgar, 2007.

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